Lendas, mitos e verdades do mundo corporativo

… a série que deu início ao portal do Pensamento Corporativo.

Certa vez, fui convidado a fazer uma palestra em uma universidade e o tema solicitado deveria conter orientações para jovens formandos sobre o dia a dia do ambiente corporativo, a evolução da carreira e a realidade que os novos profissionais encontrariam ao deixar o ambiente acadêmico. Imediatamente, me dei conta que um dos meus desafios seria expor parte da realidade – eles ainda não estariam preparados para compreender as entrelinhas do ambiente corporativo – e, em seguida, o maior de todos os desafios: manter o brilho nos olhos daqueles jovens.

Ao sinalizar, para quem inicia uma carreira, um caminho de adaptação ao ambiente corporativo, comportamento adequado, postura e técnicas de tolerância, deve-se oferecer ao jovem profissional e aos talentos, uma possibilidade de atingir os mesmos objetivos por caminhos menos tortuosos, sem a necessidade de aprender, na prática, algumas lições que podem até deixar cicatrizes na alma.

O mundo corporativo é mais fascinante do que cruel e a jornada de uma carreira pode ser trilhada com emoção, satisfação e reconhecimento, desde que a ética, o companheirismo, respeito e a transparência nos relacionamentos, nunca sejam esquecidos. Diplomacia é palavra de ordem e fazer política é absolutamente necessário.

Ilhas corporativas

Sempre acreditei que o conhecimento e a informação são ativos pessoais e profissionais que podem diferenciar alguém dentro da organização, mas, também creio que a nobreza em dividir com suas equipes tais informações, não fará de você um profissional enfraquecido ou com menos poder. Lamentavelmente, você encontrará no mundo corporativo profissionais inseguros que evitarão dividir informação e conhecimento, acreditando que isso tudo é “poder”. Ledo engano. Em meu livro falei sobre as ilhas corporativas. Então, quem segura para si informações que não lhes são exclusivas, além de prejudicar a empresa, correrá o risco de tornar-se obsoleto e ultrapassado porque, da mesma forma, outras informações vitais não lhe chegarão ao conhecimento. Pense nisso.

Quero aqui “dividir” pequenas lições do mundo corporativo, algumas derrubando as lendas e mitos, outras, ressaltando as verdades do ambiente.

A roda gigante

O real organograma no mundo corporativo não obedece à tradicional forma das “caixinhas” paralelas, horizontais ou matriciais. Lamento informar que o organograma é redondo, como uma “roda gigante”, onde, ao menos uma vez na carreira, salvo raríssimas exceções, o profissional experimentará as sensações de adrenalina na subida e o frio na barriga na hora da descida, mas a roda gira.

O excesso de confiança e as vítimas corporativas

Assim como no esporte e na vida, no mundo corporativo o excesso de confiança, sem a devida proteção física e emocional, costuma fazer vítimas. A falta de humildade, eloquência em excesso, arrogância e o mau-caratismo corroem a competência, por maior que ela seja. O tempo se encarregará de fazer o restante na carreira do indivíduo com essas características. O campo de jogo costuma estar minado. Mapeá-lo só depende de você e ficará mais fácil se você for adepto ao “fair play”.

Protegendo os talentos da organização

Até os mais retrógrados mentores corporativos sabem que há outras formas de conduzir o talentoso neófito através do correto aprendizado, sem deixá-lo apanhar tanto na organização, evitando que o talento se perca por desmotivação. Bruce Lee não ganhou músculos por apanhar, o que ele conseguiu foram hematomas. Ele ganhou músculos pelo esforço repetitivo e constante.

Fadas não existem no mundo corporativo

Muitas vezes, os que querem o seu bem dentro da organização nem sempre querem o seu sucesso, a não ser que o seu sucesso lhes traga algum benefício. Não espere por aplausos de quem não precisa lhe aplaudir. Faça seu caminho com ética e defenda os bons valores morais. Seja tão correto quando estiver em grupo quanto reto quando estiver sozinho. Todo o restante será consequência de suas demais atitudes e nunca se esqueça que aquele ambiente não é o local mais apropriado para os Elfos.

Sobre inimigos e perdão

No ambiente corporativo, nem sempre aquele que fala mais alto, com pompas, e ocupa mais espaços laterais, será o mais forte na organização. O perdão, muitas vezes, serve primeiramente para que você se sinta bem. Oscar Wilde disse, certa vez: “não deixe de perdoar seus inimigos, nada os aborrecerá tanto”. Já Will Smith, disse: “Sou maduro o bastante para perdoar, mas não sou tolo o suficiente para confiar novamente”. John Kennedy falou: “Perdoe seus inimigos, mas não esqueça seus nomes”.  Mahatma Gandhi observou: “Perdão é um atributo dos fortes”. Contudo, se você conseguir passar pelo mundo corporativo sem fazer inimigos, velados ou explícitos, não precisará se preocupar com nada disso. Jesus Cristo passou pela Terra sem fazer inimigos, mas infelizmente outros fizeram por ele e se encarregaram de fazer o mal.

Sobre a distribuição das tarefas

Se você tiver algo urgente para ser feito, peça a alguém muito ocupado pois o fará rápido para tirar a tarefa da frente. Se você tiver algo muito difícil de ser feito, entregue a um preguiçoso, pois ele encontrará um modo mais fácil de fazer. Mas, se você for líder ou gestor e encontrar esses dois tipos de profissionais na sua equipe, é melhor rever a sua própria forma de gestão porque o problema estará provavelmente em você e não neles.

Criatividade e os pressentimentos corporativos

O essencial da criatividade é não ter medo de fracassar. Na vida só erra quem tenta, mas no mundo corporativo só permanece quem muito acerta e pouco erra. As empresas não são o melhor lugar para se fazer “experiências de gestão”. Tenha em mente que o pressentimento é a sua criatividade tentando lhe dizer algo e se você muito tenta e muito erra, é bom entender rápido os sinais da sua criatividade, porque a gestão corporativa não tolera um mau pressentimento. Mas nem por isso deixe de tentar, pois só os corajosos atingem o topo do Monte Everest, desde que tenham feito um bom planejamento para isso.

Sobre a experiência e o caminho a ser percorrido

A experiência é uma lanterna dependurada nas costas, que ilumina o caminho já percorrido. Há três métodos para adquirir sabedoria na vida. Primeiro, por “reflexão”, que é o mais nobre; segundo, por “imitação”, que é o mais fácil; terceiro, por “experiência”, que é o mais amargo. No mundo corporativo, a ordem é outra e se complementa. Junto com a lanterna nas costas é preciso acender um farol bem forte à frente para iluminar o seu caminho, pois você terá que desviar de pedras e buracos, mas nunca deixe de olhar pelo retrovisor. Para isso, há uma lanterna dependurada nas costas.

Sobre as amizades corporativas

Nos momentos difíceis da vida pessoal, os falsos amigos desaparecem e os inimigos festejam, mas se um dia você se recuperar, vai se lembrar exatamente de quem permaneceu ao seu lado. No mundo corporativo acontece exatamente a mesma coisa, só que em uma escala muito maior. A pessoa tende a se lembrar de quem nunca a abandonou profissionalmente (com algumas exceções). Amizade corporativa é diferente: é fria e sólida, assim como o organograma é redondo na vida e nas corporações, onde um dia você está embaixo e noutro dia, por cima. Lembre-se das pessoas quando você estiver subindo, porque você poderá precisar delas se um dia estiver descendo.

Sobre o “palhaço corporativo”

Há um momento certo para cada comportamento de um profissional dentro do ambiente corporativo. Respeito, seriedade, retidão de conduta, educação, simpatia, cooperação e bom-humor são muito apreciados, mas o humor em excesso pode prejudicar uma carreira. O “Palhaço Corporativo” geralmente nunca é lembrado para as promoções mais importantes. O ambiente corporativo não é lugar para “stand up comedy”, a não ser que a empresa seja a própria produtora dos espetáculos teatrais.

Sábios versus terroristas corporativos

Os sábios corporativos são aqueles que, na prática, também erraram, mas não cometem o mesmo erro duas vezes. Os terroristas corporativos são aqueles que se julgam donos da verdade e do conhecimento acadêmico (muito característico nos jovens mais arrogantes e impulsivos). Esses, pouco erram porque raramente conseguirão implementar as suas teorias na prática, para a felicidade geral da corporação, afinal, sem muita teoria, o estrago tende a ser menor. Como costumava dizer um mestre que tive ao longo da carreira e que hoje dá conselhos no Oráculo: “Em tempos de crise as organizações precisam de mais prática e menos gramática”.

Fatiando o boi em bifes

Gerenciar por e-mail (ou por WhatsApp) é uma das modernas doenças corporativas. O fato de você distribuir o problema para várias pessoas por meio de mensagens eletrônicas não significa que você tenha dado andamento na solução, mas, sim, que você jogou o boi para o alto, fatiou no ar e não deixou nenhum bife cair sobre sua mesa. O que você ainda não sabe é que 70% das pessoas na empresa já perceberam isso. Os 30% restantes são aqueles que “deletaram” o seu e-mail sem ler.

Sobre a mentira no ambiente corporativo

No mundo corporativo, a mentira tem as pernas e os braços curtos. Pernas curtas porque não vai longe e não se sustenta; braços curtos porque o mentiroso, geralmente não produz. Já dizia o mestre: “No mundo corporativo, se você disser sempre a verdade, não precisará se lembrar de nada depois”.

Reputação e carreira solo

Durante a carreira corporativa, conhecimento é importante, experiência é necessária, ambição é fundamental, ética e valores são inegociáveis, sabedoria é consequência. Reputação se constrói todos os dias, esteja você bem ou tenha tido uma noite mal dormida. As suas ações e postura são a base de sua reputação ao longo da vida corporativa e representarão muito para sua vida pós-corporação, também conhecida como o “desencarne corporativo”.

As decisões nos bastidores e as parcerias corporativas

As grandes decisões corporativas são também tomadas nos bastidores e nem sempre em reuniões ordinárias do “board”. Relacionamento no “backstage” vale tanto quanto uma ótima capacidade de se expressar no conselho ou nas reuniões de diretoria. Poucos conhecem, por exemplo, o poder de um campo de Golfe nesse processo, coisa que alguns gurus da governança corporativa ainda têm dificuldade em compreender ou relutam em aceitar – talvez, porque não joguem Golfe. Uma dupla de jogadores que, no final de semana, passa três ou quatro horas conversando e andando calmamente, tem muito tempo para vencer os dezoito buracos e ainda discutir bastante sobre os problemas da empresa e, quem sabe, chegar com a decisão tomada na segunda-feira sobre uma nova contratação, a nomeação de um novo diretor, a construção de uma nova fábrica ou até sobre o lançamento de um novo produto. Se você não gostar de Golfe, experimente o Tênis ou quem sabe, a degustação de um bom vinho. Mas, lembre-se: jamais tome decisões corporativas com um copo de bebida na mão.

Autor: Orlando Merluzzi – extratos do livro Potência Corporativa, transformando o clima organizacional e a adrenalina em resultados para a organização

Essa série também inspirou a publicação do livro do autor.

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