Fala Jamal-Voz Corporativa

 fala-jamal-2


Artigo                                                                                                                          

14/11/2016

A SUA VOZ CORPORATIVA – UM TOM E UMA FALA PARA O SUCESSO NA VIDA E NOS NEGÓCIOS

Jamal Sobhi Azzam

… a importância da voz em sua carreira corporativa

Dr. Jamal S. Azzam
Dr. Jamal S. Azzam

No mundo corporativo há ritos de etiqueta, comportamento, postura e controle emocional que são fundamentais para a construção da imagem de um profissional ao longo da sua carreira. Alguns atributos vão além da sua competência e agem silenciosamente na abertura de portas, aceitação social e até mesmo no nível de confiança que o profissional, ou líder, transmitem durante os processos de relações interpessoais. Contudo, há um elemento pouco explorado com elevado grau de influência no sucesso e na carreira de um profissional e esse elemento é a “voz”.

A voz e suas características consistem em uma importante ferramenta para o sucesso no ambiente corporativo. Muitos são os exemplos de grandes líderes que utilizaram a capacidade de comunicação e sua habilidade oratória – isso inclui a voz em primeiro plano – como sólidos elementos de sustentação de sua imagem e aceitação, mas é claro que tal instrumento não substitui o conteúdo de suas falas.

Bem, como especialista no tema posso afirmar com segurança que a voz pode ser um instrumento a favor ou contra o seu sucesso e, se você não pensou nisso ainda, comece a identificar em si e nos outros um dos instrumentos mais mágicos que a natureza forneceu ao ser humano.

Todos sabemos que em um mundo empresarial competitivo, a busca por novas ferramentas para a construção de estratégias de sucesso se torna absolutamente vital para todos. Convivendo em um ambiente de personagens inteligentes e capazes, nos relacionamos com eles em todos os momentos. Mas, como em um passeio na mata desconhecida, qualquer vacilo poderá nos levar a armadilhas e quedas, as quais nunca sequer entenderemos onde e como estavam armadas. Os detalhes contam em nós e em todos os stakehoders nas mais diversas atividades.

Fisiologicamente, a voz é um conjunto de sinais emitidos pelas pregas vocais (antigamente chamadas de “cordas vocais”) e a usamos para comunicação, transmissão de emoção e persuasão. Essas pequenas estruturas que se localizam na garganta, atrás do “pomo de adão”, medem cerca de 15 a 20 mm de comprimento por cerca de 2 mm de largura. Na respiração abrem-se para a livre passagem de ar. Na fonação, juntam-se uma a outra vibrando cerca de 100 vezes por segundo nos homens e 200 vezes por segundo em mulheres, chegando ao número impressionante de 1.000 vezes por segundo em “sopranos”.

Entretanto, mais do que somente o conjunto emissor de informações léxicas e semânticas, a voz transmite mensagens e informações sobre o interlocutor, como sotaque regional, sexo, idade aproximada, estado de saúde, personalidade e algo sobre sua atitude e estado emocional (1). Além da transmissão do conteúdo das palavras, a análise emocional da voz nos remete a buscar reconhecimentos sutis e discretos de perfis de comportamentos. Tristeza, alegria, decepção, raiva, desprezo ou surpresa, são exemplos de emoções que podem ser facilmente reconhecidas.

Em uma negociação poderemos detectar pontos fracos no discurso do outro lado, abrindo uma possibilidade de exploração de um campo antes fechado.

Izdebski  (2) diz: “nós vocalizamos frequentemente, de fato de dia ou de noite, livremente e espontaneamente e nossa vocalização carrega uma enorme quantidade de conteúdo emocional, o qual pode ser verdadeiramente revelador, mesmo quando não nos damos conta disso”, reforçando a riqueza da análise que pode ser feita nas diversas variáveis da voz.

Nitidamente, o principal fator de influência positiva da voz para o mundo dos negócios é o tom grave e inúmeros estudos reconhecidos mundialmente comprovam isso. Em 2013, Mayew (3) afirmou: “os CEOs homens, com tom de voz mais grave, são gestores das maiores companhias mundiais e tem seu ganho potencializado”. O mesmo autor em abril de 2016 descreveu que o fator “tom grave da voz” é mais importante nos homens, gerando uma posição de dominância e confiabilidade. Reitera que o tom de voz é fundamental na primeira impressão entre as relações humanas, porém mostra que nas mulheres não houve relação direta entre o tom grave da voz e o sucesso empresarial, sendo que no caso delas existe variação de resultado em relação ao contexto e à situação(4).

Usar a nossa voz e reconhecer a voz que nos chega podem ser fatores decisivos para sucesso ou insucesso na carreira.

Segundo Casey, o tom de voz tem enorme influência na escolha dos líderes, tanto em homens quanto em mulheres(5). O mesmo autor descreve que nossos sinais vocais influenciam diretamente o comportamento de quem recebe nossa mensagem (6).

Outras características da voz são também importantes na transmissão subliminar das mensagens e influenciam diretamente o diagnóstico de comportamento dos candidatos em entrevistas de recrutamento e seleção, indicando que a atenção dos entrevistadores deve ser mais ampla que os protocolos habituais, como descreveu DeGroot em 1999, valorizando a análise do tom de voz, variação da tonalidade na conversa, velocidade da fala, presença e duração das pausas e variação da amplitude da voz (7).

Imagine agora que você conseguiria detectar se está ou não sendo enganado. Hirschberg descreve como reconhecer que você está sendo enganado pelos sinais emitidos na voz, como “tom de voz, energia, fluência na fala e outros sinais de estilo, como voz abafada, por exemplo”. Todos estes possuem variações atípicas em quem está mentindo (8).

O caso Bill Clinton

Neste aspecto é muito interessante analisar as variáveis vocais do ex-presidente americano Bill Clinton ao negar inicialmente ter mantido relações sexuais com Monica Lewinsky, em um dos maiores escândalos de todos os tempos da política americana, ocorrido no final dos anos 90. Posteriormente admitindo alguns dos atos, muda totalmente sua forma de falar, não só no conteúdo, mas essencialmente nos sinais vocais. Enquanto mente na primeira declaração, coloca seu tom de voz mais agudo exatamente na falsa negativa de ter mantido relações sexuais com Monica Lewinsky, dizendo “I did not have sexual relations with that woman, Miss Lewinsky”, podendo ser facilmente notada a agudização escandalosa ao pronunciar “not”.

Já no seu discurso posterior admitindo as relações sexuais, seu tom de voz é mais grave e se mantém constante na velocidade e amplitude, denotando maior confiabilidade e veracidade do conteúdo de sua mensagem. Ekman descreve esta nítida relação de agudização do tom de voz nos discursos enganosos (9).

Dentro deste campo político também é claro o componente do tom de voz nos resultados das urnas, o qual sendo um tom mais grave, é nitidamente relacionado a melhores resultados nas eleições americanas, conforme recente estudo de Casey, em 2015 (10).

Acrescentando um outro fator e tornando a análise mais interessante, podemos ver que existe uma tríplice correlação entre o tom de voz, seu conteúdo e a expressão facial na emissão da fala.

Ekman em 1998, revendo The Expression of the Emotions in Man and Animals, de Charles Darwin, escrito em 1872, consegue dar uma visão bastante objetiva e real das expressões faciais e seus sinais nitidamente reconhecíveis, aos sinais vocais, traçando uma relação direta (11).

Análise de expressões faciais em situações distintas

expressao-facial

Existem muitos campos que podem ser explorados na análise da voz para o ambiente corporativo, como através do telefone. Reconhecer um cliente estressado pode direcioná-lo automaticamente para atendentes seniors, evitando o desgaste com a conversa inicial. Caixas eletrônicos podem usar o reconhecimento de voz de um indivíduo ao tentar sacar dinheiro, através de uma pergunta simples como: “você confirma que deseja sacar esta quantia?”. Ao analisar o tom de voz da resposta do cliente, o sistema pode bloquear o saque ou até acionar a segurança e imediatamente a polícia. Pesquisas ao telefone também podem usar softwares de confiabilidade de repostas através do tom de voz do respondente, criando então mais um fator de acurácia nos seus resultados. Direcionar a conversa telefônica para venda de produtos pode aumentar o sucesso, através não só da “neuroliguística direcionada”, mas da análise do tom de voz gerando novos caminhos para estratégias de convencimento.

Enfim, como analisar a voz e como usá-la para seu sucesso é uma arte a ser estudada e desenvolvida.

O tema é vasto e repleto de possibilidades e o seu domínio poderá abrir novos campos de ação para permitir que o profissional competente se aproxime mais rapidamente do seu objetivo de posição e carreira, o sucesso, o reconhecimento, a respeitabilidade e porque não dizer, a conquista financeira e material.

Existem tratamentos para correção de voz ou simples treinamentos de postura vocal – largamente utilizados por palestrantes de renome – e tais técnicas podem, se necessário, ser utilizadas para potencializar a expressão do profissional e do líder corporativo.

A sua voz diz tanto sobre você, quanto o conteúdo de seu discurso sobre a ideia a ser transmitida.

Jamal S. Azzam – novembro/2016

Direitos Reservados ao Autor

Bibliografia

  1. Ohala, John J. – Ethological theory and the expression of emotion in the voice. ICSLP(1996)
  2. Emotions In Human Voice:  Krzysztof Izdebski – 2009 – Livro
  3. Voice pitch and the labor market success of male chief executive officers – William J. Mayew, Christopher A. Parsons, Mohan Venkatachalam – Journal of Human Behavior and Evolution Society – April 2013
  4. Low Vocal Pitch Preference Drives First Impressions Irrespective of Context in Male Voices but Not in Female Voices – Maria S. Tsantani, Pascal Belin, Helena M. Paterson, Phil McAleer – School of Psychology, University of Glasgow, Glasgow, UK – Psychology – April 2016
  5. Sounds like a winner: voice pitch influences perception of leadership capacity in both men and women – Casey A. Anderson, Susan Peters – March 2012
  6. Vocal signals also influence the behaviour of human receivers. Does voice pitch influence the selection of leaders?
  7. Why visual and vocal interview cues can affect interviewers‘ judgments and predict job performance – DeGroot, Timothy; Motowidlo, Stephan J. – Journal of Applied Psychology – 1999
  8. Distinguishing Deceptive from Non-Deceptive Speech Julia Hirschberg et al – Columbia University – University of Colorado – In Proceedings of Interspeech’2005 – Eurospeech
  9. Ekman, M. O’Sullivan, W. V. Friesen, and K. R. Scherer, “Invited article: Face, voice, and body in detecting deceit” – Journal of nonverbal behavior – 1991
  10. Candidate Voice Pitch Influences Election Outcomes – Casey A. Klofstad – Political Psychology – 2015
  11. The Expression of the Emotions in Man and Animals – Oxford University Press, 1998