A Ética corre perigo !

Aqui tem aspectos de “gestão”.

ARISTÓTELES (sou fã dele) é tido por muitos como o pai da ÉTICA. Ele dizia que todo o CONHECIMENTO e todo o TRABALHO visam algum bem (não se trata de “bem” material). A busca do bem é o que diferencia a ação humana dos animais (embora alguns animais busquem o bem da espécie humana mais do que o contrário). Aristóteles considera as virtudes éticas (Justiça, Coragem e Temperança), como habilidades complexas racionais, emocionais e sociais. Para viver bem precisamos de uma “gestão” adequada e alinhamento da amizade, do prazer, da virtude, da honra, do material e do respeito. Esses são os “bens”. Agora vamos raciocinar juntos:

Para entender e conduzir esse processo devemos adquirir capacidade de discernir através da educação adequada e hábitos eticamente aceitos. Portanto, a sabedoria como concebida por Aristóteles não pode ser adquirida apenas aprendendo as regras (regras podem ser impostas sem a nossa vontade – por um regime sem o seu voto, por exemplo). As habilidades emocionais e sociais nos dão a compreensão de bem-estar em sinergia com nossa capacidade de julgamento.

Ao analisar o raciocínio acima, você verá o quanto estamos longe desse alinhamento devido as virtudes e valores desconexos, conflitantes e limitados. Tudo, mas absolutamente tudo recairá na deficiência da EDUCAÇÃO. Meu maior receio contudo é a fraqueza emocional e social dos EDUCADORES, susceptíveis aos primeiros conceitos, sem a devida capacidade de análise e julgamento. O que corre mais risco e perigo além da Ética?  “oremos”.

Platão (o mestre) e Aristóteles
Platão (o mestre) e Aristóteles

Na imagem, Aristóteles (à direita) ao lado de seu mestre Platão. Aristóteles carrega a Ética em suas mãos e Platão segura o Timeu.

Olhando para o retrovisor e para o futuro

Governança e Gestão

Após quase trinta anos como executivo em médias e grandes empresas, vejo hoje o mundo corporativo em um ambiente diferente de negócios, com objetivos e princípios que não mudaram. O que mudou foi a velocidade com que as coisas acontecem nas organizações.

Para fazer negócios em qualquer setor da economia é preciso ter recursos, competência e informação. É no terceiro elemento que houve a grande mudança. Velocidade de informação. A internet é uma criança e os jovens que hoje entram no mercado de trabalho já nasceram após a era “www”.

A boa gestão da informação dentro das corporações será um dos fatores de sucesso da empresa. Esse é um elemento do novo mundo de negócios, mas não o principal tema de minha análise.

Quero retroceder no tempo em que a informação era tão importante quanto hoje, mas muito mais lenta. As decisões eram tomadas em outro ritmo e as pessoas nas organizações conversavam mais. Havia mais tempo disponível. Hoje o tempo é o recurso mais escasso nas empresas. Somente um bom processo de Governança pode administrar a falta de tempo em um mundo de negócios com informações que fluem na velocidade da luz.

Agradam-me os conceitos de John Davis, uma autoridade mundial em negócios familiares e governança, a quem tive o prazer de conhecer pessoalmente há vinte anos. Formei meus conceitos adequados a realidade e ao ambiente brasileiro – leia meu artigo “O Brasil não é para amadores, principalmente no negócio de caminhões”.

Ainda hoje o tema Governança Corporativa é mal interpretado por muitas empresas. Vejo algumas com enorme potencial de crescimento, dominando a informação, mas patinando na governança por falta de definições básicas de comando e estrutura. Nesse ponto entra a necessidade do Conselho Consultivo.

No Brasil, menos de 30% das empresas pequenas e médias no setor logístico possuem um conselho consultivo formal. O índice aumenta nas empresas do Sul e Sudeste, mas cai para 18% em empresas do Centro Oeste, Norte e Nordeste. Surpreendentemente, menos de 60% das grandes empresas possuem Conselho em sua governança. (Fonte: MA8 Management CG).

Governança e Gestão
Governança e Gestão

A Governança deficiente na maioria das empresas promissoras me faz concluir que o Brasil tem um enorme potencial de sucesso ao empreendedorismo (em qualquer setor) e se houver organização interna, o caminho será trilhado de forma mais tranquila. A organização a que me refiro está em acoplar o conselho consultivo no processo de gestão da corporação.

Boas práticas de Governança são necessárias para colocar qualquer empresa nos trilhos, mas há uma diferença entre governança e gestão. Governança não é gestão. É direção. Já dizia Davis:“você não precisa de Conselho definido para ter Governança, mas precisa dela para unir e prosperar”.

A criação de um Conselho Consultivo é fundamental em uma empresa que quer amadurecer, mesmo quando não exigido por lei como no caso da S/A. Mas a autoridade do Conselho não pode existir meramente para validar decisões já tomadas. Na prática, o Conselho Consultivo ajuda muito na estruturação e na estratégia de uma empresa, seja familiar ou não. Já o Conselho de Administração possui poderes legais e é ele que até mesmo destitui o CEO de uma corporação ou veta uma decisão.

O custo de um conselho não é alto, pois zela pela qualidade das decisões tomadas na empresa. Decisões erradas, impensadas, impulsivas ou sem estratégia, podem custar muito caro e comprometer o futuro do negócio.

Um bom processo de Gestão e Governança é simples e não requer fórmulas mirabolantes. Apenas depende de orientação e vontade de líderes, sucessores e acionistas.

O que posso afirmar, olhando para o retrovisor dos últimos trinta anos, é que não há como garantir, que uma corporação com um bom processo de Governança será bem-sucedida no mercado competitivo. Mas posso assegurar que sem o estabelecimento de uma boa governança corporativa, o futuro de qualquer empresa será incerto.

Artigo publicado originalmente da Revista TranspoData – Janeiro/2014

A China e o seu cartão de visitas

Além de gigante, funciona.

Quanto mais eu conheço a China e me envolvo com sua maneira de fazer negócios, mais dou conta que ainda estamos enxergando apenas a ponta do iceberg.

Orlando Merluzzi
Orlando Merluzzi

Esse gigante, que nos últimos anos movimentou a economia mundial com seu desenvolvimento e maravilhosas obras de infraestrutura, ainda não construiu um novo país em todo seu território. Por enquanto, o Sul, Sudeste e alguma parte da área Central foram desenvolvidos. Resta ainda uma outra China a ser construída no Norte, Nordeste e Centro Oeste do país.

Dinheiro não falta e seus líderes políticos já anunciaram que pretendem dobrar o PIB do país em oito anos. Mas há outra coisa que impressiona: “a seriedade com que os chineses abraçam as causas da gestão dos recursos públicos, dos projetos e da qualidade“.

A corrupção é duramente punida em qualquer nível hierárquico e a punição não tarda. Os que trabalham com dedicação, rapidamente se destacam. A população que consome emerge a cada dia e o governo parece frear um pouco o crescimento do país, pois como eles mesmos dizem, crescimento muito elástico não faz bem. Conclusão: a China vai continuar crescendo por muitos anos e espero que o Brasil saiba surfar nessa onda.

O aeroporto de Beijing é um espetáculo, mas está saturado. Transporta mais de 270 mil passageiros por dia e já foram feitas duas expansões (nada de puxadinho). Ao Sul de Beijing será entregue em 2018 um super aeroporto, duas vezes maior que o de Beijing atual. O aeroporto de Daxing terá o tamanho da Ilha de Bermudes.

A porta de entrada para um país, além de ser um cartão de visitas, tem de funcionar bem. É assim que se faz negócios com o mundo. Não importa se é privado ou não. O importante é ter respeito com o dinheiro público e com a população.

Fazer negócios com os chineses é sedutor, mas é preciso entender um pouco da cultura e sua governança corporativa. Além disso, tentar fazer com que eles entendam um pouco sobre você. Dar gorjeta ao atendente em uma loja da Starbucks em Beijing pode lhe colocar em uma situação desconfortável, pois em alguns casos eles se ofendem. Estão lá para trabalhar e não para pedir esmolas. Trabalhar e produzir. É isso que eles tem em mente, seja servindo um café, seja construindo um edifício de 200 andares.

All made in China
All made in China

Outra coisa que chama atenção é o fato da larga demanda interna ter atraído quase todas as montadoras de veículos do mundo, para produzir na China, inclusive aquelas que eram intocáveis em termos de imagem, luxo, qualidade e arrogância. Essas marcas se renderam aos modernos padrões do made in China, ou seja, qualidade Europeia, produtividade Asiática, com o menor custo local. É comum se ver nos três primeiros anéis viários de Beijing, congestionamentos de luxuosas marcas de veículos alemães e americanos, todos produzidos na China. Há pouco mais de cinco anos isso seria impossível de se imaginar.

É questão de tempo para que as marcas de carros que não produzem no Brasil e não tenham planos de fabricar aqui, passem a importar seus veículos “made in China”, afinal esses modelos produzidos na China são vendidos lá, por menos da metade do preço que os encontramos aqui.

A imagem dos produtos chineses de baixa qualidade desapareceu para quem conhece o Dragão. A China produz hoje com elevados padrões de qualidade, tecnologia e valor agregado. O próprio mercado local já começa a rejeitar os produtos de segunda linha e algumas dessas fábricas estão com os dias contados. Como exemplo, a marca líder em vendas de caminhões na China há três anos é aquela que vende os veículos com o maior preço.

Veremos uma nova onda de invasão chinesa no mundo. Com a saturação do mercado interno, as melhores fábricas e melhores marcas chinesas começam a buscar novos mercados e ultrapassar suas fronteiras, seguindo a ordem de destino para Índia, Rússia, México, Brasil, Indonésia e Turquia. Junto com essa invasão virão os tier 1 e tier 2.

Infelizmente para nós, o México passou o Brasil na ordem de preferência dos chineses (e não só dos chineses), por competência mexicana e vacilo brasileiro nas políticas de atração de novos investimentos, flexibilidade e facilidade para a abertura de novos negócios no País.

Os países que compõe a Aliança do Pacífico, Chile, Peru, Colombia e México, estão anos-luz a frente do Mercosul em termos de acordos internacionais com países que realmente agreguem as suas economias e balanças comerciais. O Brasil precisa acordar para isso. O mundo está muito mais rápido e com todo respeito ao Mercosul, a fila precisa andar.

Publicado originalmente em 27/08/2013 no blog “oleodieselnaveia.com”
Autor: Orlando Merluzzi