SANTO EMPREENDEDOR


O EMPREENDEDOR DEVE CONTROLAR A ANSIEDADE, PARA NÃO SE TRANSFORMAR EM “TAG”

Eu já não era novo na profissão de empresário e mesmo assim caí nessa. Não dormia, não relaxava, não conseguia desviar meus pensamentos e a única coisa que vinha na cabeça era minha iminente falência… parecia apenas uma questão de tempo.

Se eu pegasse a planilha e a estudasse de maneira racional, veria que “o bicho não era assim tão feio”, mas a ansiedade me fazia pensar no pior cenário. Uma busca contínua por alguma solução milagrosa para aquilo que eu já sabia que iria acontecer: o meu dinheiro acabar.

Eu ficava fazendo as contas para saber quantos meses aguentaria com aquela reserva que tinha no banco. No caso dela terminar, onde eu poderia buscar respiro? Consultava os aplicativos para ver minhas linhas de crédito, procurava o preço de mercado do meu carro para ver quanto conseguiria arrecadar com a venda dele e já migrava para um outro pensamento: como ficar sem carro?

Tudo isso me levou a uma crise de ansiedade, que se transformou em Transtorno de Ansiedade Generalizada – TAG Acordava às três da manhã e ficava me revirando na cama, fazendo uma espécie de brainstorming comigo mesmo até as cinco horas, quando eu ia para chuveiro e continuava, lá, a fundir minha cuca. Saia para o trabalho e, para variar, não rendia, por uma questão óbvia: sono.

Soluções paliativas

Comecei com um remedinho de manhã para dar ânimo, mas piorava minha insônia. Então, veio outro à noite para relaxar e acalmar. Um dos dois me trouxe efeitos colaterais e em paralelo eu fazia terapia, mas nada resolvia o meu problema principal: pensar no pior cenário possível e sofrer com ele como se isso já estivesse acontecendo.

Tornei-me triste, introspectivo, desatento e desconcentrado. Esquecia compromissos, me isolava, emagrecia, engordava… sintomas físicos. Até que um dia, estava conversando com um amigo que me convidou para assistir a uma palestra sobre motociclismo. Eu nem gosto de motos, mas fui a palestra e lá aconteceu um fenômeno: a minha ficha caiu.

O palestrante era um instrutor de pilotagem e em um de seus exemplos ele mostrou a foto de uma curva. Então perguntou para a plateia: “quando você está prestes a fazer esta curva, para onde você olha?”. A maioria respondeu errado, ou seja, que olharia para a frente. Então ele concluiu:

“Se você olhar para o chão você vai para o chão, se olhar para mato você vai para o mato, se olhar para o buraco você cai no buraco… tem que olhar para o fim da curva… tem que olhar para onde você quer chegar”. Ele concluiu mostrando fotos de pilotos de motovelocidade fazendo curvas e ficou claro que nenhum deles estava olhando para a frente, mas sim para o fim da curva.

Então, depois de quase dois anos de sofrimento, eu entendi que quando olhava para os problemas, caia nos problemas. Quando eu previa a catástrofe, produzia a catástrofe e esquecia de olhar para a solução. Percebi que nesse período todo eu apenas previa as piores possibilidades, me desgastava para evitá-las e não fazia nada para produzir.

Nas curvas da vida não podemos puxar o freio, mas sim acelerar.

Se você está passando por um problema de fluxo de caixa, deve, sim, cortar todos os gastos possíveis, mas não deve ficar pensando na catástrofe. Pense em aumentar sua receita, em vender e em fidelizar seus clientes. Gerencie sua marca, principalmente se ela for você. Pense no melhor cenário e motive-se com ele. Escolha a foto da paisagem que você quer ver e não aquela de qual você quer fugir.

Ah, preciso concluir com uma informação importante: eu não fali, recuperei a estabilidade e iniciei novos projetos profissionais. Para esse texto ficar legal, só faltou eu comprar uma moto… talvez um dia!

Aguinaldo Oliveira – 17/01/2019


SANTO EMPREENDEDOR

Quando fui convidado para fazer parte deste portal, meu desafio era incentivar o micro, pequeno e médio empreendedor, como tenho feito por meio de meu canal no Youtube e meu programa Café Corporativo. Nenhum incentivo verdadeiro pode ser baseado em ilusões e só fará sentido se eu mostrar a real situação e desafios que temos em nosso país, para quem quer empreender e inovar. Assim, batizei a coluna com este nome: “Santo Empreendedor”.

O empreendedor brasileiro não precisa ser santo, isso é exagero, mas tem vida difícil e é vítima de nossa própria cultura popular, alimentada por pessoas que, por alguma razão, não se veem como parte das organizações.

Minha missão nos artigos ou nas palestras é mudar essa visão!

Nosso país, embora cheio de recursos naturais e financeiros, é carente de muitas coisas básicas. Os recursos não chegam aonde deveriam chegar e sabemos que, onde há carência, há problemas. Onde há problemas existem também enormes oportunidades e podem surgir novas ideias e soluções. Essas soluções são, justamente, os produtos ou serviços que revolucionam a sociedade, que criam novas demandas, tecnologias e marcam o desenvolvimento e crescimento dos povos.

Penso que, se não tivéssemos problemas estaríamos na zona de conforto e nada precisaria mudar.

Por uma questão de cultura e certas tradições, correntes que ainda não nos libertaram da escravidão e por herança do Taylorismo, vemos o trabalho como algo sacrificante e o patrão como aquele que explora o trabalhador. Essa estigmatização de “patrão/feitor” faz com que o empresário brasileiro seja visto como oportunista em vez de “oportunizador”, como egoísta em vez de gerador de postos de trabalho e como explorador financeiro em vez de investidor. Todos têm a ideia de que o empreendedor é aquele sujeito que só manda, recolhe o dinheiro e se diverte com algumas malvadezas e abuso de poder.

Contudo, se empreender leva à tal boa vida e o empregado é tão explorado, por que a maioria das pessoas, então, procuram empregos?

Uma questão cultural. Desde cedo somos educados para não corrermos riscos. Somos alimentados com o medo da falência – o medo nos tira a vontade de avançar e crescer – e estimulados para termos salário garantido. De certa forma dizem que outros devem garantir a nossa subsistência e não nós mesmos. Somos programados a trabalhar para pagarmos nossas contas e sobreviver. Nos educam para esperar que o governo ou que o patrão nos “dê” alguma coisa.

Isso pode ser constatado no uso do verbo “ganhar” para se referir ao salário. Nosso idioma transforma em uma espécie de esmola aquilo que levamos 30 dias para conquistar, como se o emprego (ou o salário) fosse uma benevolência do empregador, quando na verdade nossa valorização está diretamente ligada a lei da oferta e da procura, além da disposição de correr riscos.

Então, o que faz valer a pena ser empreendedor é justamente não passar a vida dependendo de alguém que lhe ofereça algo, mas sim criar a sua própria oportunidade.

Isso será tema para um outro dia. Hoje, o que faço concluir é que não valorizamos quem cria aquilo que a sociedade precisa, que são os empregos e as oportunidades. Não existe emprego se não existir o empregador. Não existe emprego bom em empresa ruim. Então minhas 2 dicas finais são:

  • Torne-se um empreendedor é gere o seu emprego e o de mais alguns. Mesmo que não tiver uma empresa sua, aja como empreendedor na empresa do outro, cuide como se fosse sua.
  • Se você se identificou com o nome desta coluna e está se achando Santo, sugiro que desça do pedestal e aceite que, antes de serem canonizados, os Santos normalmente eram martirizados, o que significa que, somente os bons e cheios de convicção sobrevivem.

Amém!

Aguinaldo Oliveira – 07/01/2019