A Educação no Brasil, o sacrifício de uma geração

O exemplo dado pela Coreia do Sul nos últimos cinquenta anos precisa ser seguido por nós, para mudarmos o status, de eterno país do futuro para um país de concretas realizações. Só existe um caminho: investir com seriedade em Educação.

Tomando como referência para o Brasil o exemplo bem-sucedido da revolução cultural na Coreia do Sul, afirmo que nossa atual geração está perdida. Devemos então cuidar da próxima geração, para que não haja mais desperdício de talentos e cérebros.

Há alguns anos a revista Veja publicou uma excelente matéria sobre a evolução da Coreia do Sul por meio da Educação. Resgatei alguns trechos absolutamente impressionantes desse maravilhoso projeto sul-coreano, que mostram claramente a razão pela qual aquele país é grande no presente. Contudo, o gráfico abaixo é atual.

Coreia do Sul x Brasil

A Coréia do Sul e o Brasil já foram países parecidos. Em 1960 eram nações do mundo subdesenvolvido, com índices sociais e econômicos vexatórios e com taxas de analfabetismo que beiravam 35%. Na época, a renda per capita sul-coreana era a metade da brasileira. O país vivia o trauma de uma guerra civil que deixou um milhão de mortos e a economia em ruínas. Hoje, passados cinquenta anos, um abismo separa as duas nações.

Os sul-coreanos erradicaram o analfabetismo e colocaram mais de 85% dos jovens na universidade. Já o Brasil mantém 7% da população na escuridão do analfabetismo. O PIB per capita da Coréia do Sul há apenas 20 anos era US$ 12.200, enquanto o do Brasil não chegava a US$ 4.000. No ano passado (2019) os valores alcançaram, respectivamente, US$ 32.000 e US$ 8,800, mantendo a proporção de 4:1 em favor do país asiático. Fonte: Banco Mundial.

Por que isso aconteceu? Porque a Coreia do Sul apostou no investimento ininterrupto e maciço em Educação e o Brasil não o fez.

Enquanto os asiáticos despejavam dinheiro nas escolas públicas de ensino fundamental e médio, sistemática e obstinadamente, o Brasil preferia canalizar recursos para a universidade e inventar projetos mirabolantes que viravam fumaça a cada troca de governo. Ou seja, gastávamos munição atirando para todos os lados, sem acertar alvo algum.

Nota do autor: Em um período recente a prioridade de investimentos no Brasil foi dada para construção de estádios de futebol e parque olímpico, hoje, obras ociosas e dispendiosas, dinheiro que poderia ter sido dirigido para projetos educacionais, mas a vaidade falou mais alto. Agora, compare com o conceito do projeto sul-coreano.

Ao sacrificar uma geração inteira a Coreia do Sul preparou as bases e fundações para tornar-se a superpotência que é hoje, com apenas quatro pilares: política educacional; destinação de recursos; seriedade; foco. O segredo do sucesso deles foi o seguinte:

  • Concentrar os recursos públicos no ensino fundamental e não nas universidades.
  • Premiar os melhores alunos com bolsas e aulas extras para que desenvolvam seu talento. Sim, aulas extras como prêmio!
  • Dar melhores salários aos professores.
  • Deixar as universidades por conta da iniciativa privada.
  • Investir em polos universitários voltados para a área de tecnologia.
  • Atrair o dinheiro das empresas para custear as universidades, produzindo pesquisas alinhadas com as demandas do mercado.
  • Estudar mais. Simples, não? Os brasileiros dedicam menos de cinco horas por dia aos estudos. Os sul-coreanos estudam em média, onze horas por dia.
  • Incentivar os pais a se tornarem assíduos participantes nos estudos dos filhos.

Entendendo um pouco mais do sistema sul-coreano

Conforme publicou a revista Veja, a Coréia do Sul é uma sociedade obcecada pelo estudo. O Brasil, infelizmente, é uma sociedade influenciada por fatores que afastam os jovens das escolas e tudo passa por incapacidade de gestão dos governos. A retórica da educação no Brasil é apenas um discurso político (Saúde, Educação e Segurança – sempre as mesmas promessas vazias). O que distancia os jovens das escolas por aqui é exatamente o oposto daquilo que os atrai na Coréia e mais recentemente, na China. Naqueles países os jovens estudam por obrigação, por competição e por um objetivo: serem melhores.

Competir nos estudos, para os coreanos, é como praticar um esporte. É um país que tem na formação de cérebros o principal motor de sua economia. A China segue o mesmo caminho, com a diferença que o país possui hoje reservas internacionais acima de três trilhões de dólares. Podemos esperar que a China será a maior potência mundial em poucos anos.

É claro que não posso comparar os dois países (Coreia do Sul e Brasil) e as duas culturas de modo cartesiano. Mesmo ressaltadas as peculiaridades que permitiram a sua implantação na Coreia, é possível extrair lições para o Brasil. Porém, só lições não são suficientes. É preciso que nossos governantes entendam e aprendam com essas lições, mas isso demandaria deixar de fazer a “velha política”, coisa que talvez eu não tenha a felicidade de assistir em vida.

Ainda sobre a matéria publicada na Veja, entre todas as políticas adotadas pela Coreia do Sul para aumentar os índices educacionais do país, uma, de natureza simples, alcançou resultado excelente: o investimento público concentrou-se no ensino fundamental e ficou a cargo da iniciativa privada cuidar da proliferação do ensino superior. Para um país com PIB subdesenvolvido era necessário fazer uma escolha. Canalizar recursos para as escolas resultou em um sistema público homogêneo e de bom nível.

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), após avaliar o rendimento escolar em quarenta países, a Coreia do Sul revelou ter o sistema mais igualitário de todos, com pouquíssima diferença nos resultados dos alunos. O detalhe positivo: a esmagadora maioria vai bem. No ranking, o país flutua entre os cinco primeiros lugares em Matemática e Ciências, enquanto o Brasil tem amargado, em geral, as últimas colocações nas duas matérias. Por trás das notas há um aspecto fundamental: a Coreia do Sul não apenas investe mais em educação do que o Brasil, como também faz uso mais eficiente do dinheiro.

O resultado do investimento sul-coreano nas escolas públicas é visível. Todas as salas de aula são equipadas com telões de led ou cristal líquido onde os professores projetam suas aulas, os laboratórios de computação têm máquinas e equipamentos de última geração e as bibliotecas, de tão completas, atraem famílias inteiras nos finais de semana (viraram “points”). Imagine isso no Brasil? As escolas, muito provavelmente, seriam saqueadas na primeira madrugada.

A valorização do professor

Agora a apoteose. Além da infraestrutura, o dinheiro despejado nas escolas sul-coreanas produziu salários bastante atrativos para os professores, que estão entre os mais bem pagos do mundo. De acordo com a OCDE, um professor experiente de ensino fundamental ganha na Coréia um salário mensal médio superior a seis mil dólares. Trata-se de uma carreira que confere status e para muitas mulheres da Coreia do Sul, o professor é visto como “um bom partido para casar” porque tem emprego estável, férias longas (raridade no país), jeito para lidar com crianças, ótimo salário e é respeitado. Leva-se o ensino tão a sério que até professor de jardim de infância precisa ter diploma de ensino superior (a maioria conta com pós-graduação).

A motivação da competição faz com que os jovens sul-coreanos tenham como objetivo, produzir tecnologia e colocar-se à frente do Japão e da China. Infelizmente, por aqui, jovens se contentam apenas em se colocar à frente da Argentina em um jogo de futebol. Mais um exemplo sensível das diferenças.

Aos parágrafos anteriores acrescentei um pouco de pimenta por conta, mas quem quiser ler o artigo original, escrito por Monica Weinberg, poderá resgatar sua versão eletrônica de 23/12/2008.

Utilizei o exemplo da Coreia do Sul porque é recente, real e representa tudo o que eu queria para o Brasil nesse momento. Afinal, o tema educação entrou em pauta no ano de 2017, não por ser uma prioridade regular no Planalto Central, mas por causa da necessidade de dar uma destinação imune às críticas para os recursos do pré-sal.

Conhecemos bem a enorme distância entre o discurso e a prática. Quero uma política séria e honesta de educação, valorizando professores do ensino básico, repassando os recursos sem pedágios políticos intermediários, tentando salvar o pouco que resta dessa geração perdida em drogas, crime, falta de objetivos de vida, promiscuidade, dentre vários outros itens e assim, evitando que a próxima geração siga os mesmos caminhos.

Cansa ver o Brasil classificado em posições vergonhosas quando comparado a outros países, em índices de qualidade de vida, IDH, educação, tecnologia, empreendedorismo e outros que, na prática, nos fazem ter o pior desempenho econômico entre os países emergentes.

O Brasil precisa voltar a ser um lugar seguro, seja para investimentos externos, seja para caminhar nas ruas. Somente a educação reduzirá a criminalidade, aumentará a empregabilidade, colocará o País no topo, resgatará o orgulho e os objetivos de várias gerações. Discursos políticos falaciosos, apenas para conquistar votos em épocas de eleições, não se sustentam e ruem rapidamente, o problema é que são cíclicos e se repetem a cada nova jornada eleitoral.

“Sou de um tempo em que o aluno, em sinal de respeito, se levantava quando o Professor ou a Professora entravam na sala de aula”.

Orlando Merluzzi

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Este texto foi adaptado e atualizado do original publicado no 8° capítulo do Livro Potência Corporativa, de 2017, do mesmo autor.

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