ETIQUETA NOS NEGÓCIOS, O QUE PODE E O QUE NÃO DEVE

O tema não é novo. Há artigos e bons livros sobre ele. Contudo, de tempos em tempos, faz-se necessário um recall das boas maneiras e comportamentos mais adequados no ambiente de negócios. Novos profissionais ascendem às posições de comando e alguns demoram um pouco para se adaptar à cultura da empresa, embora algumas boas práticas comportamentais sejam universais.

Ao longo de sua carreira corporativa é esperado que você deixe um legado profissional. Ele está intimamente ligado com sua imagem pessoal e reputação. A imagem se constrói diariamente e seus êxitos de hoje nem sempre serão lembrados daqui a algum tempo.

Em minha carreira, ao longo de mais de 32 anos, tive o privilégio de conhecer bem, seis culturas corporativas distintas, no Brasil e no país sede de cada matriz. Alguns valores são locais e o profissional deve se esforçar para conhecer a cultura da empresa, de modo a orientar o seu próprio comportamento em reuniões, comunicações internas, encontros sociais e claro, na relação interpessoal. Uma postura equivocada ou interjeição mal colocada, em algumas empresas podem ter efeito negativo de imediato e em outras, passar despercebido.

Há culturas empresariais que fomentam o conflito e discussões ruidosas nas reuniões. Outras, abominam o conflito e suspendem as reuniões em casos onde o consenso parece não ter sido incluído no primeiro item da pauta.

“Mostrar a sola do sapato no Oriente Médio pode resultar na perda de um negócio milionário; entregar um cartão de visitas para um oriental, com o tradicional desprezo que fazemos no mundo ocidental é sinal de desrespeito; não obedecer à hierarquia ao subir uma escada ou ao entrar no elevador, pode resultar em uma advertência; em alguns países, chama-se a pessoa pelo sobrenome e em outros, pelo primeiro nome; em algumas culturas, sorrir pode ser entendido como falsidade ou liberdade não apropriada para o momento. Há locais onde o aperto de mão deve ser firme, mas em outros, um aperto de mão firme pode ser entendido como postura agressiva. Em algumas culturas é possível um bate-papo informal antes das reuniões, em outras, nem pensar.”

Bem, recomendo que o profissional procure conhecer as melhores formas de conquistar a confiança no ambiente em que estiver inserido, de modo que susceptibilidades culturais não sejam feridas.

A seguir, listo alguns comportamentos universais que devem ser observados pelos novos profissionais que assumem posições de liderança em negociações, internas e externas, coisas simples que no dia a dia ajudarão a compor sua imagem e reputação. A bem da verdade, essas recomendações valem para todos na organização, independentemente das posições hierárquicas. É o recall das etiquetas corporativas, algumas adequadas à nova realidade tecnológica.

1. Em reuniões: não bata a porta da sala, não roa as unhas, não se distraia fazendo desenhos no caderno, muito menos com as mídias sociais ou e-mails no smartphone e não cruze as pernas. Evite conversas paralelas e não cochiche com a pessoa ao seu lado. Não interrompa quem estiver falando, a não ser que seja para colaborar positivamente com a tese que o interlocutor estiver apresentando, mesmo assim, que seja uma interrupção curta. Mas, cuidado, em algumas culturas uma interrupção pode significar a sua exclusão da lista de convidados para a próxima reunião.

2. Agendas ocultas: procure evitar. Na maioria das corporações é uma boa maneira de se fazer inimigos corporativos.

3. Cumprimentos e apresentações. Ao cumprimentar pela primeira vez, olhe nos olhos e incline um pouco a cabeça para frente. Na maioria das culturas é um sinal de gentileza e respeito e costuma ser bem recebido pela outra parte. Diga seu nome completo e se houver troca de cartões, receba o cartão da outra pessoa com as duas mãos, lendo-o com atenção antes de guardá-lo no bolso do paletó. Se a reunião for ao redor de uma mesa, mantenha o cartão de visitas da pessoa sobre a mesa. Evite cumprimentar as pessoas com a mão suada e lave o rosto durante o dia. Não abrace e não dê tapinhas nas costas de quem você não é íntimo. Ao cumprimentar uma mulher, não dê “beijinhos”. Ao ser apresentado a alguém, levante-se. Tente chamar as pessoas pelo nome (ou sobrenome).

4. E-mails: uma doença corporativa. Procure responder as mensagens recebidas e se você estiver em cópia, só responda com cópia para os demais caso você tenha realmente algo importante para acrescentar. Evite discussões e contestações públicas por e-mails; para isso, prefira uma conversa pessoal. Jamais deixe os copiados em uma situação de constrangimento. Não envie e-mails com cópia-oculta, pois o copiado pode não notar e replicar para outras pessoas e isso não ficará bem para você, afetando o nível de confiança. Escreva somente o necessário e não responda as provocações na mesma intensidade. Quando você receber o terceiro e-mail sobre um mesmo assunto, é momento de parar com a troca de mensagens e chamar uma reunião. Tome a iniciativa.

5. Nunca aponte o dedo para alguém em uma sala de reunião ou em uma conversa no ambiente profissional. Se for apontar para algum local ou até mesmo para a tela de projeção, utilize dois dedos juntos.

6. Restaurantes: mantenha modos aceitáveis no restaurante e evite comer como se estivesse retornando de uma missão na selva. Não faça sujeira na mesa ou no chão ao cortar o pão com as mãos e em caso de acidentes com um copo de água, peça desculpas e cubra com o guardanapo. Não beba álcool em um almoço de negócios e, no caso de jantares sociais promovidos pela empresa, conheça seus limites para evitar vexame. Acredite, as pessoas ao seu redor observam tudo isso e você será o assunto por muito tempo. Se você estiver em uma mesa de almoço ou jantar, em outro país e lhe oferecerem algo para comer cuja aparência não revele o conteúdo de imediato, não tenha receio em dizer que você é vegetariano, isso não ofende o anfitrião, mas é importante avisar antes do início da refeição. Se o anfitrião lhe oferecer álcool e você tiver a chance de recusar, há várias formas delicadas de fazê-lo, sem ofender. Por fim, quem convidou, para o almoço ou jantar, deve pagar a conta.

7. Após os encontros, sempre envie uma nota simples de agradecimento, é elegante e de bom tom.

8. Aparência. Vista-se bem, adequadamente ao momento e ao ambiente, seja formal, social ou “casual”, mas não se descuide da higiene pessoal. Isso pode afastar as pessoas de você.

9. WhatsApp – Evite escrever vários textos curtos e clicar o comando de envio por várias vezes seguidas. Escreva um único texto e envie uma única vez, de preferência, sempre em letras minúsculas, mas desligue o aparelho ou o som em uma reunião.

10. Humildade. Na empresa, cumprimente verbalmente todas as pessoas com um “bom dia”, seja o porteiro, a moça da limpeza, o colega de trabalho ou o presidente. Isso lhe fará muito bem.

11. Serviços de terceiros. Ao solicitar a cotação de um trabalho externo, responda para as empresas que lhe enviaram a cotação, mesmo que a resposta seja negativa. A ausência de resposta para uma empresa de consultoria, por exemplo, poderá fazer com que você não tenha resposta no seu próximo pedido de cotação, ou que receba um preço bem mais alto. Lembre-se que, para fornecedores externos, você representa a empresa e a sua atitude pode ser confundida com a própria política corporativa.

12. Pontualidade. Seja pontual e caso se atrase para uma reunião por razões que fujam ao seu controle, como trânsito, por exemplo, avise com antecedência que irá se atrasar e explique o motivo. Na maioria das vezes, as pessoas toleram essa situação, desde que a desculpa não seja repetitiva.

13. Recados. Retorne as ligações e nunca prometa aquilo que não poderá cumprir.

14. Humor no ambiente de trabalho. Há um momento certo para cada comportamento dentro do ambiente corporativo. Respeito, seriedade, retidão de conduta, educação, simpatia, cooperação e bom-humor são muito apreciados, mas o humor em excesso pode prejudicar uma carreira. O “Palhaço Corporativo” geralmente nunca é lembrado para as promoções mais importantes. O ambiente corporativo não é lugar para “stand up comedy”, a não ser que a empresa seja a própria produtora dos espetáculos teatrais.

15. Mentira: não minta. No ambiente corporativo a mentira tem as pernas e os braços curtos. Pernas curtas porque não vai longe e não se sustenta; braços curtos porque o mentiroso, geralmente não produz. Lembre-se: se você disser sempre a verdade, não precisará se lembrar de nada depois.

A Etiqueta Empresarial é uma combinação de comportamentos, atitudes, tradição, cerimônias, estilos e cultura, utilizados para transformar o relacionamento pessoal em agendas positivas. Pode destruir ou impulsionar uma carreira.

Há muitos outros itens que eu poderia incluir nesse texto, mas para evitar que fique longo demais, vou deixá-los para uma próxima oportunidade.

A presença da ética corporativa não elimina a necessidade da boa etiqueta empresarial.

Orlando Merluzzi – 09-08-2017


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Etiqueta nos negócios – LinkedIn

Site do autor: Orlando Merluzzi

 

Frases famosas cujo autor não recebeu o devido crédito. Algumas, nem foram ditas.

Qual efeito dessa cultura na sociedade e no mundo corporativo?

“Quem conta um conto aumenta um ponto”. Essa frase não é de Clarisse Lispector, nem de Monteiro Lobato, mas é quase perfeita. O famoso telefone sem fio, a conversa de corredor, o “boi na linha”. Imagine que muitas frases de efeito, que você certamente já repetiu ou então ouviu (uma ou outra), nunca foram ditas por seus supostos autores e algumas, sequer foram pronunciadas. São fantasias e acabamos acreditando e propagando. Tanto faz se a conversa ocorreu na lanchonete “Boca Maldita” ou na “maldita boca da internet”, que propaga “fakes” com a mesma velocidade que muda a página para uma nova estória.

A internet não é a única culpada. Muitas citações erradas ou maldosas já causaram grandes estragos no passado, imbróglios diplomáticos e até decapitação, quando não havia internet e nem telefone.

Atire a primeira pedra quem nunca pensou que fossem verdadeiras as mistificações abaixo:

“Os fins justificam os meios”

Essa famosa frase nunca foi dita por Nicoló Machiavelli em sua obra O Príncipe, oferecida a Lorenzo de Medici, com segundas intenções. Alguém resumiu os pensamentos do autor e distorceu aquilo que não pode ser resumido em uma única frase. Talvez, o trecho que mais se aproxime disso no livro está no final do Capítulo 18: “Procure, pois, um príncipe, vencer e manter o Estado: os meios serão sempre julgados honrosos e por todos louvados, porque o vulgo sempre se deixa levar pelas aparências e pelos resultados, e no mundo não existe senão o vulgo…”

“Tudo que pode dar errado, vai dar errado” ou, “Se algo pode dar errado, dará”

Major Edward Alvar Murphy Jr. (falecido em 1990) era engenheiro aeroespacial e uma citação sua, mal interpretada ou difundida erroneamente, deu origem à famosa Lei de Murphy. Ele nunca disse aquilo. Na realidade, cruzando a informação de George Nichols (engenheiro presente no teste em 1949) com a entrevista do filho de Murphy, Robert, a frase correta foi: “Se houver mais de uma maneira de fazer um trabalho e uma dessas maneiras puder resultar em um desastre, então ele fará dessa maneira”, referindo-se de forma pouco tolerante ao assistente técnico que provocou a falha em um importante teste aeronáutico.

“Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”

Não, a frase nunca foi dita por Albert Einstein e nem por Benjamin Franklin. A autoria dessa frase, até aqui é desconhecida.

“Todo mundo é um gênio, mas se você julgar um peixe por sua capacidade de subir em uma árvore, vai gastar toda a sua vida acreditando que ele é estúpido”

Essa frase também não foi dita por Albert Einstein. Não há tal registro oficial.

“Mulheres bem-comportadas, raramente fazem história”

Mais uma frase de efeito, dessa vez atribuída à Marilyn Monroe, mas, também não é dela, embora combinasse perfeitamente com a loira. A frase, na verdade é da historiadora Laurel Thatcher Ulrich.

“Não concordo com uma palavra do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las”

Não se desaponte, mas Voltaire nunca disse essa frase. Originalmente aparece no livro The Friends of Voltaire, de 1906, onde a biógrafa Evelyn Beatrice Hall tenta resumir o pensamento do filósofo iluminista.

“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.”

Não há registro crível dessa famosa frase atribuída a Charles Darwin, mas há muitos autores de auto-ajuda que utilizam nomes de famosos para dar credibilidade aos seus discursos.

“Se não têm pão, que comam brioches”

Essa famosíssima frase também foi creditada para a pessoa errada. Em sua autobiografia, Jean-Jacques Rousseau afirmou que uma princesa ficou conhecida por dizer a frase “Se o povo não tem pão, que coma brioche”. Porém, quando Rousseau escreveu suas “Confissões”, Maria Antonieta tinha entre 12 e 14 anos. É mais provável que ele estivesse se referindo a Maria Teresa de Espanha, que teria dito a famosa frase, cem anos antes.

“Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos, pelo mesmo motivo”

O autor dessa pérola é desconhecido. Certamente, não foi Eça de Queiroz e nem Benjamin Franklin, que disseram tal frase. Eu apostaria em Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, pois a frase tem o “jeitão” dele.

“A genialidade é 1% inspiração e 99% transpiração”

Se você pensa que essa é mais uma frase de efeito do genial Albert Einstein, desculpe-me, mas não é. A frase foi dita por Thomas Edison.

“O Brasil não é um país sério”.

Charles de Gaulle nunca disse isso, oficialmente. No início da década de 1960, Brasil e França entraram em conflito diplomático por causa de divergências quanto à pesca de crustáceos (também conhecido como Guerra da Lagosta). Foi nesse contexto que o francês Charles de Gaulle teria dito: “O Brasil não é um país sério”. Contudo, quem difamou o próprio país foi o embaixador brasileiro Carlos Alves de Souza, ao sair de uma reunião com de Gaulle e pronunciar a frase aos jornalistas. O próprio de Gaulle desmentiu isso posteriormente, sem muito sucesso, pois até hoje há jornalistas brasileiros que citam a frase, com crédito ao ex-presidente francês, como se estivessem presentes naquela reunião em 1962, no Palácio do Eliseu.

E o mundo corporativo com isso?

História ou folclore, há uma grande quantidade de frases e citações desmistificadas em websites críveis para verificação de autenticidade, mas a reflexão para esses casos de propagação indevida deve ser estendida às nossas vidas em sociedade e no mundo corporativo, afinal, os elementos das inter-relações pessoais que deterioram o clima organizacional – e sobre os quais comento bastante em meu livro Potência Corporativa, recém lançado pela Editora Pensamento Corporativo Ltda – independem da mídia social para serem equivocadamente ou maldosamente propagados. 

A extraordinária reputação de um profissional pode ser construída sob os alicerces da competência e uma excelente assessoria de imprensa, mas, também pode ser prejudicada por quem conta um conto e aumenta um ponto e, como diz o provérbio, “há quatro coisas que, após lançadas, não voltam atrás: a flecha, a palavra pronunciada, a oportunidade perdida e as penas ao vento”. Em tempo, esse não é um provérbio chinês, nem árabe.

A internet ou aquele “cantinho da fofoca” no ambiente corporativo, não são culpados por aspectos comportamentais. No máximo, a internet é “o meio” e o cantinho do café, apenas uma desculpa.

Orlando Merluzzi


 

Lançamento do livro: Potência Corporativa, 2017. Já disponível para venda.

Como gerenciar o clima organizacional no mundo corporativo público e privado, assegurando a motivação e a capacidade de inovar e empreender.


Ética, bullying, assédio moral, falta de respeito e insatisfação no ambiente de trabalho. O que fazer para evitar comportamentos internos destrutivos para a empresa e como corrigir a rota? Incluindo trechos da série: “Lendas, Mitos e Verdades do Mundo Corporativo” 

Um livro essencial para gestão de recursos humanos, carreira, programas de talentos, desenvolvimento de pessoas, mentoring e treinamentos corporativos. 

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Potência Corporativa: Transformando o clima organizacional e a adrenalina em resultados para a organização, 2017 – Editora Pensamento Corporativo Ltda.

Público alvo: Lideranças, Talentos e Gestores (em todos os níveis).

Sumário: Este livro, de leitura fácil e agradável, traz ensinamentos e casos do ambiente corporativo e define o conceito da Potência Corporativa como consequência da gestão do clima organizacional e das relações interpessoais e interdepartamentais nas organizações, públicas e privadas. A Inteligência Emocional é expandida no ambiente de trabalho, resultando no autor definiu como Emoção Corporativa. Através dela, a empresa potencializa os resultados operacionais e sua capacidade de inovação e empreendedorismo interno. A má gestão da emoção corporativa, ou a falta de um correto diagnóstico, pode resultar na perda da energia produtiva devido aos fatores inerentes ao comportamento do ser humano, que afloram nas relações pessoais em qualquer ambiente. O livro aborda aspectos da ética nas organizações e na vida, bem como a educação e a capacidade de julgamento dos valores morais. O autor incluiu trechos dos ensinamentos da série “Lendas, Mitos e Verdades do Mundo Corporativo” e colocou na obra, um pouco de seus conhecimentos e vivência, adquiridos em 32 anos de carreira, contando ainda alguns casos históricos e exemplos elucidativos.

Ética, uma reflexão para a vida e para as organizações

“Um manifesto em favor da Ética, da Moral e da gestão das emoções no mundo corporativo público e privado”

Trecho do livro: Potência Corporativa, 2017, Ed. Pensamento Corporativo, autor: O. Merluzzi

Ao lado de Platão, Aristóteles carrega a Ética a Nicômaco.
Obra: Escola de Atenas – de Raffaello Sanzio, 1510
Nela podem ser vistos também, Zeno, Epicuro, Pitágoras, Sócrates, Heráclito, Euclides, Ptolomeu e até o próprio Rafael.

Vivemos tempos de mudança. Todos os dias somos surpreendidos com notícias bombásticas e, mais recentemente, a sobreposição de fatos alarmantes no campo empresarial, político e diplomático nos atinge com tanta velocidade que nem conseguimos absorver o primeiro impacto e, pronto, lá vêm novas notícias trazendo mais do mesmo.

Convido-os para uma reflexão, livre de emoções, sobre os limites da Ética e até onde se confundem com valores na vida corporativa.

Recentemente, ouvi em uma importante emissora de rádio de São Paulo, a entrevista de um executivo responsável por recursos humanos em uma grande empresa que, ao ser perguntado sobre qual a principal característica que o profissional deve ter para ser contratado, sua resposta foi: “Acredito que integridade e honestidade estão em primeiro lugar”. Com todo respeito ao nobre profissional entrevistado, penso que esses atributos jamais deveriam ser classificados na lista de características de uma pessoa, pois trata-se de algo tão básico e que naturalmente esperamos ver em um ser humano, que se torna precípuo antes de iniciarmos uma conversa com alguém. Para mim, um bom profissional precisa ter atitude, postura, otimismo, competência e ambição. Integridade e honestidade não se discutem. Retidão deve ser demonstrada no palco e nos bastidores.

Não quero com isso dizer que vivemos uma inversão de valores da classificação e grau de importância dos aspectos éticos. Vemos diariamente a deterioração dos princípios morais por corruptos e corruptores, gerando indignação nas mídias sociais, disputas ideológicas passionais e acusações mútuas entre facções de adoradores de discursos, mas não pensem que isso não tenha intensidade semelhante na vida privada e no mundo corporativo. Felizmente, a consciência está aflorando pela liberdade de imprensa, pensamento, expressão e capacidade de julgamento e, assim, vejo um viés positivo na luta entre o bem e o mal e, quem sabe, um futuro melhor para nossos netos. A ética está vencendo, aos trancos e barrancos, mas triunfará.

Como sempre faço quando toco nesse tema, procuro relembrar conceitos daquilo que chamo de “atributos do bem”.

Para que compreendam a diferença de ética e moral, uso uma metáfora: Moral é o que pode azedar o seu fígado, mas a ética é imparcial em qualquer situação. Moral são regras aceitas por um grupo, ou seja, para os corruptos e corruptores, suas ações estão dentro de seus valores morais e o fim justifica o meio.

Por isso, vemos corrupção também no mundo corporativo, público e privado, desde um grande contrato para construção de uma usina ou uma fábrica a um simples fornecimento de pequenos serviços de alimentação ou manutenção, mas quando os atores são expostos, inevitavelmente são crucificados no código de conduta das organizações sérias e idôneas. Sim, elas existem. As empresas condenam o que é imoral para nossos padrões de julgamento. Quais são eles? Aqueles atributos precípuos a que me referi anteriormente.

A ética é uma reflexão sobre o que é moral e aí está o “grande perigo”, pois, tudo dependerá da capacidade de julgamento, a qual está intimamente ligada à Educação. Se pensarmos nos pontos falhos do desenvolvimento das gerações futuras, provavelmente a educação e a formação do indivíduo no núcleo familiar aparecerão entre os primeiros na lista de problemas. Assim, uma deficiência na capacidade de julgar pode comprometer o entendimento das diferenças entre o que é moralmente aceito e eticamente correto.

Estou entre aqueles que afirmam que, uma entre as crises que o ser humano enfrenta hoje é a crise de valores, pois essa pode afetar a humanidade, que passaria a viver de forma mais egoísta, cruel e violenta – espero que a “Era de Aquarius” possa ajudar a corrigir esse bug na evolução humana – e daí a desesperada necessidade de bons exemplos na sociedade, que transmitam importantes valores humanos para assegurarmos um futuro melhor em todos os aspectos.

No mundo corporativo os valores da empresa determinam o comportamento da gestão e passam pela consciência de conselhos e conselheiros. No ambiente eticamente aceito, uma empresa sustentável deve propagar e se apoiar em valores como respeito às pessoas, responsabilidade social, transparência e, é claro, integridade e honestidade, mas nem por isso devo perguntar a um candidato se ele é honesto ou íntegro, mas certamente perguntarei sobre suas ações sociais e responsáveis. Normas e princípios morais da corporação devem ser transmitidos em forma de cascata a todos os colaboradores e parceiros comerciais. Valores de uma corporação são pilares da sua cultura organizacional, devendo ser praticados e não usados apenas como adorno em um quadro cujo título é “Missão, Visão e Valores”.

Em qualquer sociedade, quem segue as regras é uma pessoa moral e quem as desobedece, uma pessoa imoral. Aqueles que possuem maior poder de influência, seja pela oratória, força ou capacidade financeira, estabelecem o que é moral e o que é imoral – outra enorme preocupação que tenho com os políticos e com a política.

Se os jovens tiverem capacidade para refletir sobre as regras – que formam a moral – assim se constituirá a ética, pois não errarão na reflexão. Formação, educação e ética estão intimamente ligados e o único caminho para seguirmos precisa ser pavimentado em um esforço coletivo, de toda sociedade, deixando de lado ideologias extremas que separam nós e eles, para melhorar a educação e o sistema de ensino. Faremos dessa forma um País mais ético, nem que nos custe uma geração ou mais. Isso refletirá na vida, na sociedade, nas organizações, no modo de pensar o bem e a responsabilidade social, no papel das empresas públicas e privadas e, até, no redesenho de alguma governança corporativa.

Continuo insistindo na educação como único caminho para o resgate de valores morais. Mais ação e menos discurso. Quanto mais cedo começarmos, talvez tenhamos a sorte de sacrificar apenas a próxima geração, para que nossos bisnetos possam nascer em um mundo mais ético.

Uma parcela pequena conhece a diferença entre ética e moral, ambas possuem significados distintos. Para que eu possa embasar a conclusão, devo esclarecê-las em um contexto filosófico. A palavra “moral” tem origem no termo latino “morales” que significa “relativo aos costumes”. A palavra “ética” vem do grego “ethos”, que significa “modo de ser” ou “aquilo que pertence ao caráter”.

O que se entende por moral é um conjunto de regras que orientam as ações e o julgamento sobre o que é bom ou mal, o que é certo ou errado. Se, por exemplo, uma classe de pessoas tem como regra usufruir o que não lhe pertence e se apropriar do que não lhe é devido, essa é sua moral e ela não está errada segundo suas regras. Contudo, na ética do cidadão de bem, isso é imoral, ou seja, a ética aflora da análise e investigação do comportamento humano ao tentar explicar as regras morais de forma racional. Ética é uma reflexão sobre a moral. Ambas são responsáveis por construir as bases de convivência, conduta, forma de agir e de se comportar em sociedade. Mas atenção: o que é moral em uma sociedade pode não ser ético em seu juízo.

Num sentido prático, o conceito é compreendido analisando as condutas de alguns profissionais, tais como médicos, jornalistas, advogados, empresários ou políticos. Há expressões como: ética médica, ética jornalística, ética empresarial e ética pública. Isso é espírito de corpo e autodefesa corporativa. Está errado, pois aqui a ética se confunde com lei, quando a lei é que deveria ter como base os princípios éticos.

A moral deve orientar o comportamento do homem diante de normas instituídas pela sociedade. Diferencia-se da ética no sentido de que esta tende a julgar o comportamento moral de cada indivíduo no seu ambiente. Em tempo, ambas buscam o bem-estar social por caminhos distintos.

Ser ético é agir dentro dos padrões convencionais e não prejudicar o próximo. Ser ético é fazer o bem, pensar o bem, promover o bem, mesmo quando os holofotes sobre você estão desligados. É cumprir os valores estabelecidos pela sociedade em que se vive. Bem, agora precisamos entender o que são valores.

Uma definição que me agrada é: “Valor é uma experiência transmitida ou vivida que elegemos e aceitamos para dar sentido à nossa vida cotidiana, resultando em valores éticos ou de consciência que orientam a conduta – valor moral.  É o valor ético que controla a vontade do indivíduo, independentemente de ele estar sozinho ou em grupo”. É o que leva o indivíduo a fazer autocensura por reflexão espontânea e não passar por cima de seus valores, por estar só e ninguém observar suas ações.

Se a moral incorpora as regras que temos de seguir para viver em sociedade e essas regras são determinadas pela própria sociedade, então torna-se perigoso para um futuro próximo – sendo que isso tem me preocupado sobremaneira – que a deficiência educacional e a pouca capacidade de juízo sobre o que é certo ou errado, possam estabelecer parâmetros morais bizarros e inaceitáveis sob o crivo da correta análise ética.

Em qualquer sociedade, quem segue as regras é uma pessoa moral; quem as desobedece, uma pessoa imoral. Assim, aqueles que possuem maior poder de influência, estabelecem o que é moral e o que é imoral.

Eu queria muito poder dizer aos jovens, de uma forma que eles realmente escutem e reflitam, conectando seus neurônios ainda não manipulados, para agirem de forma que sua conduta seja um exemplo para todos. Se eles tiverem a capacidade de refletir sobre as regras – a moral – então essa capacidade de pensar se constituirá em ética.

Formação, educação e ética estão intimamente ligados. Somente um esforço de toda sociedade para melhorar nossa educação e nosso sistema de ensino farão do Brasil um país mais ético, com valores inegociáveis e inquestionáveis.

Orlando Merluzzi