O investidor estrangeiro e as jabuticabas do Brasil

“Algumas coisas que só tem por aqui”

As empresas instaladas no País sempre tiveram muita dificuldade em explicar para seus diretores nas matrizes, norte-americanas, europeias ou asiáticas, como é que os negócios no Brasil funcionam e de que forma os gestores locais conseguem navegar em meio a tanta burocracia, cartórios, taxas, contribuições e impostos – só tributos, temos mais de noventa.

Além do Brasil não ser um País para principiantes, a saúde financeira das empresas depende de um bom planejamento tributário além da própria operação industrial ou comercial. Explicar aos investidores estrangeiros sobre a incidência dos impostos federais, estaduais e municipais, alguns em cascata, assim como os créditos de impostos, por direito, na cadeia de suprimento e distribuição, sempre foi uma tarefa árdua aos CFO’s das organizações estrangeiras instaladas aqui.

Há outras características exclusivas que as matrizes hoje entendem com mais familiaridade, mas por muitos anos consistiram em fatores de questionamentos e até de dúvidas quanto à competência dos gestores locais.

“Nossas jabuticabas operacionais e comerciais soavam mais como desculpas aos ouvidos dos chefes estrangeiros…”

Algo que se tornou clássico nas operações comerciais em quase todas as montadoras, principalmente de caminhões e máquinas, era a deliciosa adrenalina de realizar a metade do volume de vendas do mês, somente na última semana. Tão divertido quanto estressante, o pessoal na matriz ficava maluco com isso e no último dia do mês, às 23h, o número de vendas projetado era sempre atingido. Vários são os fatores que explicam, mas não justificam tal prática. Com o tempo os investidores foram se acostumando e relaxaram, até o momento em que os objetivos deixaram de ser alcançados. Acelerar o faturamento nos últimos dias do mês é uma jabuticaba típica do setor no Brasil.

Hoje algumas marcas conseguem manter regularidade semanal de vendas e muitos dos fatores locais que resultavam na maratona de final de mês, foram eliminados. Como diz o meu amigo Dadalti, “se você atinge os objetivos de vendas não há o que explicar, mas se você não atinge os objetivos de vendas, não adianta explicar”.

Jabuticaba, é coisa nossa
Jabuticaba, é coisa nossa

Uma tradicional ferramenta de vendas foi introduzida com a criatividade brasilis e muito utilizada em momentos de inflação alta, quando a aquisição de um bem era uma forma de proteção ou investimento. O “consórcio” e os grupos autossuficientes, que ainda hoje representam uma forma excelente de financiamento para aquisição de bens, foi por muito tempo uma jabuticaba difícil de explicar aos financeiros das matrizes na Europa e nos Estados Unidos.

O FINAME é outra exclusividade, que além de ser a forma mais barata de financiamento, protege a produção nacional e incentiva o investimento produtivo no país. Todavia, quando o BNDES fecha a torneira, a indústria engasga, pois as outras formas de financiamento ao consumidor cobram juros elevados, acima de 1% ao mês. Mais uma dificuldade: explicar aos países sede das empresas, taxas de juros mensais nessa ordem de grandeza, quando a inflação por lá navega abaixo de 3% ao ano.

Lembro-me de um chefe alemão, quando eu ainda era analista financeiro em uma grande multinacional, que não assimilava as composições financeiras em um cenário com inflação no Brasil de quase 2% ao dia útil, enquanto na Alemanha a inflação era de 2% ao ano. Ele queria fazer as contas em uma calculadora que possuía apenas as quatro operações matemáticas. Para mim, a HP-12C já era mais importante do que os computadores da NASA. Devo mencionar que a empresa não era alemã.

Vários estados da Federação possuem agência de fomento e atração de novos investidores. Os estados mais organizados têm até banco de desenvolvimento para financiar o início da operação, e isso às vezes faz a diferença e define a opção do local pelo investidor. Em adição, outros benefícios sucedem em forma de financiamento do caixa do novo negócio, permitindo que em um futuro próximo a comunidade local se beneficie largamente do investimento ali realizado. Mas como explicar aos investidores estrangeiros, que um benefício fiscal concedido para atrair o investimento pode não existir?

“As vezes estudar um investimento no Brasil é ter que construir um plano de negócios com benefícios incertos.”

O Brasil é um país com uma lei específica que regulamenta de forma abrangente, o relacionamento entre as montadoras e suas redes de concessionárias. É algo que protege os dois lados, mas impede o fabricante de implantar algumas ações unilaterais no âmbito da distribuição de veículos sem um acordo prévio com o seu canal de distribuição. Graças a essa lei, algumas montadoras pensaram duas vezes antes de deixar o Brasil durante aquela década perdida no século XX, pois indenizar uma rede de concessionárias poderia custar bem mais caro do que simplesmente encerrar a operação no país.

Mas com todo esse cenário acima, o Brasil continua sendo o destino mais procurado por grandes empresas como a nova fronteira possível para se estabelecer no mercado sul-americano e global. É absolutamente estratégico para qualquer empresa com objetivos expansionistas, se instalar na América do Sul e logicamente o Brasil oferece mais da metade do mercado regional potencial. Então, para ser forte e competitivo na América do Sul deve-se ter um fundo de comércio consolidado no Brasil.

Jabuticaba é doce e quem experimenta gosta. Mas precisa tirar a casca.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s