Fim do álibi. Algumas desculpas por resultados corporativos ruins terão que ser revistas com o fim da crise.

Como estrategista e consultor costumo analisar os relatórios oficialmente divulgados aos investidores pelas corporações multinacionais, em vários setores e de várias nacionalidades. Geralmente as empresas divulgam também as apresentações regionais realizadas no board e em alguns casos é possível ler – explicitamente – que a queda em vendas e em receita na América Latina foi resultado exclusivo da crise e da retração econômica no Brasil. Até aí, uma justificativa sensata, não fosse o fato que algumas empresas apresentam queda considerável de market share no mesmo período e nesse caso, a crise deixa de ser álibi. Para piorar há empresas que omitem isso, deixando a conclusão para os investidores mais cautelosos nas análises de vendas e participação de mercado, nem sempre disponíveis no relatório divulgado.

Ao longo do crescimento econômico ocorrido na segunda metade da década passada e início da década atual, muitas organizações no Brasil “surfaram na onda” da alta demanda, expansão do crédito, disponibilidade de financiamento e taxas de juros muito atrativas. Com resultados nunca antes experimentados e rentabilidade que surpreendia a cada ano, as filiais remetiam lucro e isso por si bastava para as matrizes, afinal, os investimentos feitos no Brasil ao longo dos anos precisam ser pagos e os investidores externos não são entidades beneficentes.

A partir de 2013, com ápice em 2017, a situação na economia piorou muito e a fragilidade da estratégia de gestão em algumas empresas emergiu da cortina de fumaça gerada na época da bonança, perdendo participação de mercado, comprometendo o canal de distribuição e aumentando passivos contratuais, mas nem por isso deixaram de reportar a crise brasileira como maior responsável pelo fraco desempenho regional.

Bem, agora há uma tendência clara de melhora no cenário político e econômico e isso vai obrigar algumas empresas a recuperar o prejuízo, não só o prejuízo operacional, mas de gestão e talvez pagar o preço das experiências fracassadas com processos equivocados e governança inexistente. Como dizia o velho ancião, “na hora de separar os homens dos meninos, quem tem matriz forte que arque com os custos” e se não acelerarem o planejamento estratégico e a revisão de seus modelos de negócios, precisarão ser bem criativos para encontrar as próximas desculpas para a matriz e torcer para que o índice de tolerância dos investidores seja tão alto quanto a própria recuperação econômica que virá.

A hora de planejar os próximos cinco anos é agora.

Orlando Merluzzi

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